sábado, 29 de março de 2008

Metade


Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca. Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio. Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste. Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante. Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade. Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor, Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento. Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo. Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço. Que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada. Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão. Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável. Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância. Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei... Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito. E que o teu silêncio me fale cada vez mais. Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço. Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba. E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer. Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, a canção. E que minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade... também.
Oswaldo Montenegro


"Se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria, isso pra mim é viver."
[ Djavan ]

"Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que às vezes poderíamos ganhar pelo medo de tentar."
Todos os dias morre um amor. Quase nunca percebemos, mas todos os dias morre um amor.
Às vezes de forma lenta e gradativa, quase indolor, após anos e anos de rotina. Às vezes melodramaticamente, como nas piores novelas mexicanas, com direito a bate bocas vexaminosos, capazes de acordar o mais surdo dos vizinhos. Pode morrer em uma cama de motel ou simplesmente em frente à televisão de domingo. Morre sem um beijo antes de dormir, sem mãos dadas, sem olhares compreensivos, com um gosto salgado de uma lágrima nos lábios. Morre depois de telefonemas cada vez mais espaçados, diálogos cada vez mais resumidos, de beijos cada vez mais gelados... Morre da mais completa e letal inanição!!! Todos os dias morre um amor, embora nós, românticos mais na teoria do que na prática, relutemos em admitir. Pode morrer como uma explosão, seguida de um suspiro profundo (porque nada é mais dolorido do que a constatação de um fracasso), de saber que, mais uma vez, um amor morreu. Porque, por mais que não queiramos aprender, a vida sempre nos ensina alguma coisa. Esta é a lição: qualquer amor pode morrer! E todos os dias, em algum lugar do mundo, existe um amor sendo assassinado. Como pista desse terrível crime, surge uma sacola de presentes devolvidos, uma lista de palavrões sem censura, ou o barulho insuportável do relógio depois da discussão... Afinal, todo crime deixa as suas evidências! Todos nós podemos ser um assassino. E podemos agir como age um assassino: podemos nos esconder debaixo das cobertas, podemos nos refugiar em salas de cinema vazias, ou preferir trabalhar que nem um louco, ou viajar para "espairecer", ou confessar a culpa em altos brados, fazendo do garçom o seu confidente... Mas há também aqueles que negam, veementemente, a sua participação no crime, e buscam por novas vítimas em salas de bate papo ou pistas de danceteria, sem dor ou remorso. Os mais perigosos aproveitam sua experiência de criminos para escreverem livros de auto ajuda, com a ironia de quem tem muito a ensinar para os corações ainda puros. Existem também os amores que clamam por um tiro de misericórdia: ainda estão juntos, mas se comportam como um cavalo ferido, esperando ser sacrificado. Existem também os amores fantasma, aqueles que se recusam a admitir que já morreram.. São capazes de perdurar anos, como mortos vivos sobre a Terra, teimando em resistir apesar das camas separadas, beijos frios e burocráticos, Estes não querem ser sacrificados, mas irão definhar aos poucos, Existem ainda os amores vegetais, aqueles que vivem em permanente estado de letargia, que se refugiam em fantasias platônicas, recordando até o fim de seus dias o sorriso daquela ruivinha da 4a. série. Ou, se faz presente na fã que até hoje suspira e delira em frente a um pôster do Elvis Presley. Mas eu, quase já desistindo da minha busca, pude ainda encontrar uma outra classificação: os amores vencedores. Aqueles que, apesar da luta diária pela sobrevivência, das infinitas contas a pagar, da paixão que decresce com o decorrer dos anos, da mesa-redonda no final de domingo, das ROUPAS INTIMAS penduradas no chuveiro e das brigas que não levam a nada, ressuscitam das cinzas e se revelaram fortes, pacientes e esperançosos. Mas estes são raríssimos, e há quem duvide de sua existência. São de uma beleza tão pura e rara que parecem lendas. Um dia vou colocar um anúncio, bem espalhafatoso, no jornal: PROCURA-SE UM AMOR VENCEDOR - ofereço generosa recompensa. Mas, no fundo, sei que ele não surgiria como por acaso... O que esses poucos vencedores falam é de que esse amor foi suado, trabalhado, bem administrado nas centenas de situações do cotidiano. Não é um presente de loteria, de sorte, nem de magia. É simplesmente o resultado concreto daquilo que foi um relacionamento maduro e crescente entre duas pessoas.
"(...) Pronto, o amor se estrepou. Daqui estou vendo o sangue que escorre do corpo andrógino. Essa ferida, meu bem às vezes não sara nunca às vezes sara amanhã (...)"
(Drummond)

Aprendi


" Uma coisa eu aprendi pelas estradas por onde eu andei, e que eu sei que vou levar para estradas por onde eu vou andar...Tenho consciência das minhas fraquezas e dependências. Isso me dá autonomia para um vôo maior. Porque o importante não é chegar lá, é poder voltar " .
Gonzaguinha

" Ninguém pode construir em teu lugar…



” Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida.Ninguém exceto tu, só tu.Existem, por certo, atalhos sem números e pontes, e semi-deuses que se oferecerão para levar-te além do rio, mas isso te custaria a tua própria pessoa.Tu te hipotecarias e te perderias.Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.Onde leva? Não perguntes, segue-o.”
(NIETZSCHE)